Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Torga. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de março de 2008

Miguel Torga


.
.
.
(Dezoito asas rumorosas...)
.
.
.
.
.
.
O primeiro bando de perdizes roncou, e tirou-lhe duas.

No meio do silêncio contido, que a cada momento ameaçava romper-se, o cão parado, a espingarda em meia pontaria, os pés fincados no chão mas tensos como molas, uma gota misteriosa caiu no copo e fê-lo transbordar.

Dezoito asas rumorosas ergueram-se do carqueijal, o Nilo saltou, os tiros partiram, e resultou daquela explosão de força o aniquilamento inevitável de dois seres.

Tudo certo e perfeito.

O catastrófico, o absurdo, fora a continuação da inércia.

A verdadeira morte seria a vida parada, cada respiração a encolher-se, cautelosa.

Assim é que o caçador se sentiria criminoso, o perdigueiro fera, as perdizes vítimas.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XIV, princípio.

Fotografia : Corvo,Abril de 2006




(Rua-das-Pretas)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A vida da Aldeia

S. Martinho de Anta, Natal – A vida tem na aldeia um ritmo que a cidade nunca poderá entender. Cada compasso, aqui, dura um ano certo. Porque se mata o porco só pelo Natal, se os salpicões ficam salgados passam-se trezentos e sessenta e cinco dias a repetir:
- Os salpicões ficaram salgados.
A correcção apenas se poderá fazer no ano seguinte.
Cada semente que a mão lança à terra, cada árvore enxertada, cada lagar de vinho, prendem o homem a um pelourinho de expiação de doze meses. Desde que haja engano numa realização, só na próxima sementeira, época ou colheita se poderá retomar a liberdade, para de novo semear, enxertar e pisar – e apagar da própria lembrança e da dos vizinhos o erro vital cometido.


Miguel Torga, in “Diário IV “– 4ª edição, pág. 142

Fotografias ,Pimeirol, Agosto de 2003
Beirós, Setembro 2007